Quarta capa

Quarta capa

Texto de quarta capa/orelha escrito por Paulo de Tarso Salles

Convertido em símbolo nacional, Villa-Lobos sofreu ao longo das décadas que sucederam sua morte (em 1959) um processo de cristalização no qual sua vida e obra foram ajustadas às ideologias e vicissitudes ditadas por questões políticas e estéticas que vem sendo debatidas no Brasil desde então. Essa trajetória estabeleceu com mais ou menos clareza aspectos que convinham para compor o retrato oficial do compositor, cuja consagração em Paris (na década de 1920) e atuação no país (depois de 1930) tornaram necessária a elaboração de uma narrativa que explicasse as inúmeras contradições que deram origem a essa mitologia. De onde veio o maestro brasileiro? Como pode um músico autodidata, distraído em noitadas de violão e choro, tornar-se o artífice de sonoridades sinfônicas que aparentemente traduzem e representam a complexidade musical e cultural de nossa nação idealizada?

marcadorDa perplexidade inicial, foi construída a imagem caótica de um compositor a um só tempo genial, apesar de sua má formação; inventivo, mesmo que ocasionalmente demonstre ter gosto duvidoso; generoso e educador, ainda que colaborador de um regime ditatorial. As contradições persistem e tornam forçosamente plural qualquer esforço de atribuir significado(s) ao papel de Villa-Lobos na vida brasileira. Então, em algum ponto dos anos 1970, essas imagens se estabilizaram em parte, e logo o rosto do músico foi estampado em papel-moeda, batizou praças, shopping centers, parques, condomínios. Do ponto de vista crítico, contrapõem-se as tendências que idealizam o herói ou o vilão.

A celebração do centenário de nascimento do compositor, em 1987, desencadeou um progressivo movimento de reavaliação e reinterpretação de sua obra e legado. Várias questões cruciais para a vida nacional estão incrustadas na obra villalobiana: as tradições indígenas e afro-brasileiras; o desmatamento, o agronegócio e sua influência nas comunidades caipiras; o papel da música como ferramenta educacional, etc. E até mesmo sobra espaço para outra investigação de caráter mais musicológico: que espécie de compositor foi Villa-Lobos? Do que é feita sua música? Como ele elabora estruturas musicais capazes de representar símbolos nacionais? O PAMVILLA é um grupo de pesquisadores reunidos mais sistematicamente desde 2012 que vem desenvolvendo pesquisas em torno dessas questões. O presente volume reúne textos que repensam as representações indígenas ouvidas na obra do compositor (nos ensaios de Leopoldo Waizbort e Pedro Paulo Salles), o relacionamento do compositor com seus colaboradores artísticos (Flávia Toni e Manoel Correia do Lago), a preservação do acervo feita pelo Museu Villa-Lobos (Pedro Belchior), os aspectos retóricos, gestuais e representacionais (Lutero Rodrigues, Achille Picchi, Nahim Marun, Norton Dudeque e Acácio Piedade), análises de sua linguagem harmônica, estrutura formal e processos composicionais (Silvio Ferraz, Rodolfo Coelho de Souza, Gabriel Moreira, Allan Falqueiro, Joel Albuquerque, Walter Nery Filho, Ciro Visconti e Paulo de Tarso Salles).