Prefácio

PREFÁCIO

Norton Dudeque

O presente volume, Villa-Lobos, um compêndio: novos desafios interpretativos, registra o trabalho de diversos pesquisadores interessados na obra de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). A bibliografia sobre o compositor é vasta e sempre crescente. Estudos biográficos, documentais, ensaios sobre a personalidade, o pensamento e a obra de Villa-Lobos são alguns dos exemplares de textos produzidos sobre ele. A seguir, neste prefácio, listam-se alguns deles, com o intuito de ilustrar apenas uma pequena parte da literatura sobre Villa-Lobos.

A grande produção bibliográfica nacional sobre Villa-Lobos se pautou por textos que construíram um discurso de elogio, muito merecido, diga-se de passagem, a ele, por sua personalidade forte, por sua imensa obra musical, por sua ideologia. Essa formação do mito Villa-Lobos é visível em inúmeros volumes publicados pelo Ministério da Educação e Cultura e pelo Museu Villa-Lobos nas décadas seguintes à sua morte (décadas de 1960 a 1980). Ilustrativa disso é a coleção de 12 volumes de coletâneas de textos intitulada Presença de Villa-Lobos. Percebe-se que parte dos escritos iniciais da década de 1960, nesta série que tratava de enobrecer a figura do maior compositor brasileiro, são relatos de conhecidos, amigos, intérpretes, etc. que rememoram passagens da vida e da obra de Villa-Lobos.

A partir do segundo volume, são publicados textos do próprio Villa-Lobos, que apresentam a sua visão sobre assuntos variados, desde a noção de arte até diretrizes para o canto orfeônico no Brasil. Estes textos são significativos e deveriam ser novamente editados e publicados com outros do compositor em um volume dedicado somente aos escritos de Villa-Lobos. Mas a riqueza de depoimentos, de textos escritos sobre ele nestas coletâneas é importante para os pesquisadores da sua obra. Um aspecto que se observa é o tratamento dado às suas composições. Geralmente são descrições elogiosas da música do compositor, mas, a partir do 11º e 12º volumes, publicados em 1980-1981, parece haver uma certa mudança na abordagem das obras. Notadamente são os textos de Eero Tarasti incluídos nestes volumes que incentivam o leitor a buscar escritos mais técnicos que tratem de assuntos tais como a relação de Villa-Lobos para com a música indígena brasileira e sugiram paradigmas para o estudo sobre o compositor. Em 2012 o 14º volume desta coleção foi publicado como uma homenagem aos “100 anos de Arminda”, a Mindinha. Os autores desse volume refletem a tradição dos estudos sobre Villa-Lobos: não somente autores consagra- dos, como Vasco Mariz, Turíbio Santos e Hermínio Bello de Carvalho, entre outros, mas também autores de uma nova “safra” que abordam a música em questão por uma ótica atual, seguindo tendências contemporâneas de pesquisa. Estes autores, Paulo de Tarso Salles e Leopoldo Waizbort, entre outros, estão presentes no volume ora publicado: Paulo de Tarso Salles como editor principal e autor, e Waizbort como autor de um capítulo sobre Villa-Lobos e a música indígena.

Também editados pelo MEC e Museu Villa-Lobos estão os volumes, publicados dentro da série Concurso Nacional Sobre o Estudo Técnico, Estético e Analítico, de várias obras de Villa-Lobos. Há, por exemplo, Comentários Sobre a Obra Pianística de Villa-Lobos (1968), de Souza Lima; Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos (1970), de Arnaldo Estrella; As Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos (1971) e Os Chôros de Villa-Lobos (1973), de Adhemar Nóbrega; são estudos que priorizam uma abordagem técnica e analítica das obras em questão. Ainda dentro da produção nacional com um caráter contextual-analítico está Villa-Lobos, o choro e os choros (1977), de José Maria Neves, e Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira (1986), de Bruno Kiefer.

Por volta do final da década de 1980 e início de 1990, obras internacionais sobre o compositor surgiram. Em 1987, Tarasti publicou em Helsinque Villa-Lobos: ja Brasilian sielu, traduzido para o inglês em 1995 como Heitor Villa-Lobos: the life and works, 1887-1959. O volume trata das principais obras de Villa-Lobos e contém, por vezes, análises elucidativas. Lisa Peppercorn contribuiu com a biografia intitulada Villa-Lobos (1989) e também com Villa-Lobos – The Music, an analysis of his style (1991). David P. Appleby é autor de Heitor Villa-Lobos: A Bio-Bibliography (1988), que contém uma listagem das composições em ordem cronológica, com sua instrumentação e informações sobre estreia, além de uma extensa e útil bibliografia. Gerard Béhague tem seu principal livro, Heitor Villa-Lobos: e Search for Brazil ’s Musical Soul (1994), enfatizando uma abordagem analítica de obras selecionadas e tratadas como exemplos dos estilos do compositor em várias épocas de sua vida. Finalmente, Simon Wright publicou em 1992 Villa-Lobos na série Oxford Studies of Composers, onde preza por uma abordagem biográfica, contextual, analítica de obras selecionadas do brasileiro. Portanto, nesta amostragem das obras publicadas durante a década de 1980-1990, o interesse de musicólogos internacionais pela obra e vida de Villa-Lobos produziu uma literatura que passou a ser de referência até os dias de hoje.

No Brasil, estudos com um viés analítico da obra de Villa-Lobos surgiram de forma mais intensa por volta de 2000. Em 1999, o estudo de Marlene M. Fernandes sobre os processos de estruturação do poema sinfônico Erosão foi um dos que adquiriram importância pelo pioneirismo. Também importante é a tese de doutorado de Gil Jardim, de 2002, intitulada Bachianas brasileiras no 7: o estilo antropofágico de Heitor Villa-Lobos. Ao longo da primeira década dos anos de 2000 a produção acadêmica com viés analítico centrada na obra de Villa-Lobos se fortalece e tem um ponto culminante com a tese de doutorado e posterior publicação em livro de Villa-Lobos: Processos composicionais (2009), de Paulo de Tarso Salles. A partir desta época, universidades se tornam um ponto relevante na pesquisa sobre o compositor. A Universidade de São Paulo (USP) tem desenvolvido pesquisas interessantes na área, assim como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). As universidades situadas no Rio de Janeiro também contribuem com importantes trabalhos. O interesse e a pesquisa sobre a obra de Villa-Lobos adquire maior primazia em outras instituições, por exemplo, a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Federal do Rio Gran- de do Sul (UFRGS), etc. Eventos acadêmicos, tais como as duas edições do Simpósio Internacional Villa-Lobos realizadas pela USP em 2009 e 2012 e o I Simpósio Nacional Villa-Lobos: obra, tempo e reflexos organizado pela UFRJ em 2015, também se tornam regulares e contribuem de forma decisiva nos estudos da área.

Finalmente, o presente volume é uma coletânea de artigos sobre a obra de Villa-Lobos com vários focos de pesquisa, tais como sociologia, etnomusicologia, musicologia e análise musical. Este compêndio é, portanto, consagrado às diversas tendências de pesquisa sobre a obra de Heitor Villa-Lobos e se torna uma fonte de referência, de consulta e de divulgação do trabalho de vários pesquisadores interessados no assunto.

Curitiba, 2016