Apresentação

APRESENTAÇÃO

Paulo de Tarso Salles

Um texto de apresentação a este compêndio sobre Villa-Lobos implica apresentar também – ainda que sucintamente – o grupo de pesquisa PAMVILLA (Perspectivas Analíticas para a Música de Villa-Lobos). Formado em 2012, na esteira da realização do II Simpósio Internacional Villa-Lobos, organizado pelo departamento de música da Universidade de São Paulo (CMU-ECA/USP), o PAMVILLA reúne atualmente cerca de 24 pesquisadores, 14 deles doutores e os demais estudantes de doutorado, mestrado e iniciação científica. Uma das características desse grupo é a interdisciplinaridade, aproximando áreas de trabalho provenientes da música, sociologia, história e semiótica, entre outras, por pesquisadores de várias regiões do Brasil. O objetivo do grupo é reinterpretar o papel de Villa-Lobos na cultura brasileira, como compositor, educador, agitador cultural, cuja atuação foi decisiva para o delineamento de algumas características que se estabeleceram como símbolos sonoros da brasilidade.

A abordagem que este compêndio adota explora alguns campos de investigação que podem ser mapeados na produção artística de Villa-Lobos: a figura do indígena, quer como representante das diversas etnias nativas, quer como símbolo da idealização do mito fundador da cultura brasileira; as interpretações da gestualidade e do legado da obra villalobiana; a estrutura musical.

Os dois textos iniciais, por Leopoldo Waizbort e Pedro Paulo Salles, discorrem sobre “os índios de Villa”, tratando o assunto de maneira complementar: o sociólogo Waizbort parte do contato de Villa-Lobos com os cilindros de gravação da expedição Rondon, registrados por Roquette-Pinto, revelando a “pesquisa de gabinete” de onde o compositor deu forma a suas representações do indígena; educador e etnomusicólogo, Pedro Salles faz o caminho oposto de “pesquisa de campo”, indo à procura das raízes morfológicas das palavras na canção “Nozani-ná”, dos Paresi-Haliti, realizando extensa investigação que desvenda a cosmogonia implícita sob essa canção e a cultura por trás daquela representação.

Os musicólogos Flávia Toni e Manoel Corrêa do Lago realizam uma interpretação das cartas trocadas por Mário de Andrade, Villa-Lobos, Di Cavalcanti e Adolph Bolm no planejamento de coreografias, figurinos e cenários para os balés do compositor; o que nos leva ao texto seguinte, do historiador Pedro Belchior: uma reflexão sobre a trajetória do Museu Villa-Lobos, instituição criada em 1960 e que abriga correspondências, documentos e partituras com a missão de preservar, divulgar e promover a crítica da obra do compositor.

O maestro Lutero Rodrigues questiona a noção de que Villa-Lobos teria “descoberto o Brasil” somente após sua primeira viagem a Paris em 1923, ideia defendida por críticos que consideram como oportunista e arrivista a postura que o compositor adotou naquela temporada em que se apresentou para o público europeu.

Duas visões sobre estratégias expressivas de Villa-Lobos são apresentadas por Achille Picchi e Nahim Marun: o compositor e pianista Picchi investiga a trama entre música e texto, enquanto o pianista Marun revela os jogos de representação dos personagens retratados na suíte A Prole do Bebê no 1.

Outra vertente analítica, fundada em conceitos semióticos, é explorada por Norton Dudeque e Acácio Piedade; enquanto Dudeque trata da gestualidade no Trio Para Cordas de 1945, mostrando suas correlações com a forma musical, Piedade investiga o prelúdio da Bachianas Brasileiras no 2, mostrando como a teoria das tópicas pode desvendar as estratégias retóricas e narrativas do compositor na construção de seu ideário de representação nacional.

Partindo da investigação dos manuscritos de obras como A Prole do Bebê no 2 e Rudepoema, o compositor Silvio Ferraz realiza uma interessante aproximação dessas composições, relacionadas pelo processo de montagem e elaboração de ideias, integradas à invenção.

Quatro pesquisadores, Allan Falqueiro, Walter Nery Filho, Joel Albuquerque e Ciro Visconti, se reuniram em torno de um ponto comum em suas pesquisas: o papel da simetria na obra villalobiana. Cada um deles desenvolve o tema à sua maneira, segundo referenciais teóricos específicos: Falqueiro demonstra alguns princípios básicos, que vêm da matemática e se manifestam de maneira peculiar na linguagem musical; Nery Filho investiga a exploração das relações motívicas e intervalares para a geração de estruturas harmônicas de peças da Prole do Bebê no 2; Albuquerque, a bipartição do teclado em teclas brancas e pretas e a formação de coleções referenciais nos Choros nº 7 e nº 4; Visconti explora aspectos idiomáticos que geram simetria a partir da ação do instrumentista no braço do violão.

Os três trabalhos restantes destacam aspectos harmônicos e formais: Gabriel Moreira prossegue investigando as correlações entre material harmônico e expressão na série dos Choros, em uma análise que envolve desde aspectos puramente estruturais a interpretações semióticas; o compositor Rodolfo Coelho de Souza avalia a importância do pentatonismo, coleção referencial não muito comentada pelos teóricos mais recentes, mas que revela sua importância como um dos materiais de trabalho significativos para a música da primeira metade do século XX. Por sua vez, Coelho de Souza analisa o Concerto para violão e pequena orquestra, uma das obras mais tocadas do compositor e das mais importantes para o repertório do violão em todo o mundo. Finalmente, eu mesmo me encarrego de apresentar um estudo sobre a forma sonata nos quartetos de cordas de Villa-Lobos, demonstrando suas estratégias de adaptação de uma forma clássica para um contexto harmônico pós-tonal.

São Paulo, 2016